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domingo, 5 de fevereiro de 2017

O dia em que perdi não uma, nem duas, mas todas as pessoas do grupo!

Há muitos anos atrás vivi uma peripécia que ainda hoje me deixa num misto de enormes gargalhadas com a recordação dos nervos daquela noite.

Cheguei ao hotel para ir buscar um pequeno grupo que tinha no seu programa uma panorâmica por Lisboa e jantar num restaurante do Bairro Alto.
Muito simpáticos, bem dispostos, entramos no autocarro, percorremos a cidade e paramos no Miradouro de São Pedro de Alcântara. Dali tínhamos de continuar a pé até ao restaurante.
Expliquei-lhes que o nosso motorista iria voltar aqui para nos levar de volta ao hotel após o jantar, mas que eu me encontraria, na mesma, com eles no restaurante para os trazer até ali.
Repeti algumas vezes, perguntei se tinham percebido bem, disseram que sim.

Lá fomos nós. Chegados ao restaurante, fiquei até os pedidos estarem todos feitos e terem começado a servir as entradas. Fui então jantar noutro sítio, pois desta vez não estava programado eu ficar no mesmo restaurante que o grupo.
Não estando no mesmo local que o grupo é sempre mais difícil coordenar a hora de saída, pois nunca sabemos a que ritmo estão a comer, a ser servidos, se vão pedir digestivos, se alguém quer ir embora mais cedo e precisa de um táxi, etc, como podem verificar é sempre preferível ficar com o grupo, mas nesta noite, por impossibilidades de reserva, não era mesmo possível eu ficar. Decidi deixar o meu cartão com o meu contacto telefónico e pedi à chefe de sala que me avisasse caso o grupo precisasse de algo e quando percebesse que o grupo queria regressar, explicando que eu iria voltar ao restaurante para os levar de regresso ao hotel.
Despedi-me com um até já.

Fui jantar, liguei duas vezes para ir sabendo como tudo estava a decorrer. A chefe de sala repetia que não me preocupasse, pois ligaria assim que eles terminassem para que eu pudesse ir andando para o restaurante. Não fui logo após terminar o meu jantar, porque o restaurante do grupo era tão pequeno e estava completamente lotado que eu não tinha literalmente uma cadeira para esperar, nem uma outra sala, nem um lobby. Se entrasse no restaurante sem o grupo ter terminado, teria que ficar tal qual uma sentinela à porta do mesmo!
O tempo passava, passava, passava e o telemóvel não tocava. Para não parecer chata, decidi ir até ao restaurante e ficar na rua se assim fosse preciso, apesar da hora e do frio.
Entro, olho para a mesa onde estava o grupo e não vejo ninguém. Ninguém.
Procurei a chefe de sala e perguntei onde estavam. Responde-me muito calmamente: "foram embora"!
Como assim foram embora? Gritei no meu cérebro!
Pensei que estava a brincar comigo e ela repetia, que sim, que tinham ido. Perguntei porque não me telefonara tal como tínhamos combinados, explica-me que eles lhe disseram que sabiam onde tinham de ir e que não era preciso!
Eu não queria acreditar. O meu coração batia a mil, só os imaginava perdidos pelo bairro, sem saberem onde estava o autocarro, só pensava na agência que me chamara e que iria ficar bem zangada comigo, ao mesmo tempo ía tentando acalmar-me a recordar-me de que na verdade estava a lidar com adultos que certamente iriam encontrar o caminho de volta, mas... acreditem a sensação é terrível. Parece que tinha deixado filhos pequenos perdidos numa cidade estranha.

Liguei ao motorista aflita, a tentar explicar tudo. O motorista era alguém com quem trabalhava regularmente, daqueles bons profissionais que se tornam amigos. Entre tentar acalmar-me, procurar soluções e fazer-me rir, ele foi impecável. Ainda hoje quando nos vemos falamos deste grupo e brinca sempre comigo e a minha aflição.
Ele decidiu ir para o ponto de encontro, quem sabe eles estariam lá, eu fui percorrer o bairro a pé, mas nada, ninguém.  Cheguei ao autocarro, demos uma volta pelas ruas em torno do bairro e por fim fomos para o hotel. Riamos, imaginavamos os piores cenários possíveis, imaginamo-nos despedidos, riamos, eu quase chorava, uma emoção!
Liguei ao hotel, à project manager e não é que nesse momento ela diz-me assim "ía mesmo ligar-te agora, porque o chefe do grupo chegou ao hotel e pediu para que me ligassem preocupado, porque queria que te avisássemos que eles já estavam de regresso e que tinham percebido que não tinham cumprido as tuas "ordens" e que imaginavam-te muito preocupada com eles. Queriam pedir-te desculpa.".

Não queria acreditar! Que pessoas mais espectaculares!
É que, quando situações bem menos complicadas que esta acontecem, as pessoas de imediato colocam a culpa no Guia e no Motorista, logo. Fiquei perplexa e tão agradecida.

O Jorge Humberto (o motorista) só ria e ria e ria.
Eu depois também.

No dia seguinte tinha tour com eles e a primeira coisa que me disseram foi "desculpa".

Esta é mesmo daquelas estórias para mais tarde recordar!


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Preparadíssimas

Lá fomos nós preparadas para fazer uma panorâmica pela cidade de Lisboa antes do jantar do grupo, ajudar na coordenação durante o jantar propriamente dito, e regressar ao hotel com todos.

Chegadas ao hotel dizem-nos assim: "ah, vai haver festa, é possível que o último autocarro só saia às 03h00."


Não????

He he he

Assim seja, estamos preparadíssimas!


O que queremos é clientes felizes e com vontade de voltar a Portugal!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

História da Ana Paula Xisto - os Guias são comuns mortais

Quando um Guia vai trabalhar, sabe que durante aquelas horas mais ninguém existe no Mundo a não ser o seu grupo, são os turistas, a agência, os fornecedores que dependem de como correm essas horas de trabalho que esperam que o Guia não pense em mais nada a não ser nesse seu grupo.
Assim paira sempre no ar o peso de tudo correr no mais próximo da perfeição!
Muitas vezes temos a sensação que o Guia não pode cair, não pode tropeçar, não pode enganar-se numa palavra, não pode ficar com algo verde entre os dentes, não pode não saber um caminho, nem esquecer uma data! Ainda menos atender o telemóvel. Porque... terá o guia outra vida para além daquele momento com eles?
Sim, a vida pessoal do Guia é um grande mistério! Como se prepara ele? Com quem está antes do grupo chegar? Como reage a família e amigos a tudo isto?

A Ana Paula Xisto conta-nos como foi o dia em que se descobriu que ao Guia também acontecem "estas coisas", só que acontece é sempre perante uma plateia!
Ai como o Guia precisa relativizar tudo na vida, rir de si próprio e ser forte perante tanto olhar!

"Fui ao Palácio da Pena e quando estava a sair do palácio, tirei o telemóvel do bolso esquerdo de trás das calças, para ver as horas e dar tempo livre para fotos e casas de banho, quando me apercebo q tinha um buraquinho por baixo do bolso! Apalpei outra vez para ver o tamanho do rasgão, mas era pequeno e não me preocupei.
Ao chegarmos à Boca do Inferno saí com o telemóvel na mão, mas este caiu no chão e eu baixei-me para apanhá-lo, nesse momento só ouvi "rrrrrrrrr", logo atrás de mim vinha um casal e consegui ouvi o que o senhor dizia para a mulher: "ah regarder les pantalons de notre guide" ... Comecei a rir à gargalhada e não conseguia parar, eles também, a motorista (a quem eu já tinha perguntado se se notava muito), também se ria às gargalhadas, e assim num ápice o grupo ficou todo curioso com o que se passava e porque riamos tanto!
Pensei: tenho que arranjar um modo de tornar isto engraçado, e disse-lhes que tinham uma guia sexy e mostrei-lhes ... começaram todos a rir ... a dizer que é a moda de agora, eu dizia q sim e que como estavamos em Cascais eu queria estar na moda ... enfim foi uma risota até Lisboa!
Quando nos despedimos pedi muita desculpa, mas não me iria levantar para me despedir deles e claro continuou a risota. A mulher do francês só dizia q tinha sido o melhor e mais divertido dia!"


domingo, 2 de outubro de 2016

Mas onde está o Castelo?

Não sei bem porquê, mas nos últimos 3 anos tem surgido uma dúvida comum a várias nacionalidades e idades: "mas onde está o Castelo?".

Na maioria dos países europeus os Castelo são edifícios grandes, majestosos, com algumas salas para visitar.
Quando chegamos ao Castelo de São Jorge, percorremos a praça, vamos junto à muralha, falamos da vista, damos a volta, entramos no Castelejo e depois damos tempo para fotografarem ao ritmo de cada um, tem surgido a pergunta: "mas onde está o Castelo?".

Nas primeiras vezes fiquei incrédula. Como assim? Onde está? Depois pensei que era algo vindo de uma nacionalidade específica, mas não!

O meu discurso sobre castelos mudou. Agora começo sempre por explicar o que é um castelo e como são em Portugal. Por norma, a dúvida já não surge mais!

Mas... curioso não?

terça-feira, 7 de junho de 2016

História da Inês Valencia

A Inês foi presenteada com mais uma daquelas questões que pensamos: "como é que é possível alguém perguntar isto?"

Reparem bem na imagem:



E a pergunta é: "Sabe como é feito o corte desta pedra? E porque é que o fazem assim? Liso nas arestas e com um relevo com bolinhas no resto."

Na hora acredito que a vontade tenha sido a de suspirar e perguntar se realmente isto seria assim tão relevante, mas como sabemos que cada pessoa tem um interesse diferente na vida, a Inês foi pesquisar e a resposta existe: para conseguir esse efeito pede-se para bujardar a pedra.

Et voilá, todos aprendemos algo hoje!

domingo, 22 de maio de 2016

Um escadote gigante

Em 15 anos de trabalho esta situação ainda não tinha acontecido a um dos meus grupos!
Chegados ao Castelo de São Jorge, uma das senhoras do grupo pousa o telemóvel (ou deverei dizer TV, tendo em conta o tamanho que tinha) na muralha, sem reparar que a muralha é diagonal e não horizontal. Num ápice o telemóvel cai na propriedade que fica mesmo por baixo do castelo. Propriedade cujo terreno parece mais que abandonado!

A senhora quase perdeu a respiração, ficou branca, em silêncio e após o choque inicial veio a tremer contar-me o que aconteceu e perguntar como poderíamos resolver a situação.

Formatamo-nos de tal modo para uma vida com telemóveis, que achamos que a perda de um equivale à perda de uma vida. A senhora suava, tinha uma expressão de verdadeiro pânico, não queria ir aproveitar o tempo livre enquanto eu tentava resolver o problema, para ela a vida tinha acabado. "Estou só" dizia ela sem parar, "não tenho como falar com ninguém para avisar que estou bem!"
Lembrei-a que há mais telefones no mundo, inclusive computadores e que por muito caro que o telemóvel tenha sido, por muitos números que ali estejam, por muitas fotos e vídeos que possam estar ali guardados, o telemóvel não passa de uma máquina. Não é uma vida.

Mas lá parti em busca de uma solução: após falar com os seguranças, com os donos dos cafés, com as colegas e com a agência, a solução passou de ligar à polícia e bombeiros, até tentar descobrir qual a casa que corresponde aquele terreno, até que finalmente e simplesmente um dos directores do castelo chamou um dos jardineiros e o senhor lá veio... com um escadote gigante e "salvou a vida da senhora"!

Ao que parece situações dessas acontecem 3 vezes ao dia!


terça-feira, 26 de abril de 2016

O Guia... aquele ouvinte

Se vocês soubessem as coisas que ouvimos e vemos depois dos longos jantares acompanhados de bom vinho!

ai ai 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Um Dedo

A manhã começou assim:


Um grupo simpático, um passeio pelo percurso da água em Lisboa, uma vista que eu já não via há algum tempo.

Passados umas horas acabou assim:


Um senhor mais distraído que cai e corta o polegar! Mas um corte que deixou toda a cartilagem, tendões e osso de fora! Eu não sei como é que ele conseguiu tal proeza, mas aconteceu! O sangue não parava, o 112 veio assisti-lo e ele ficou 3 dias no hospital.
Ao olhar para um dedinho nem pensamos que se o abrimos sai tudo aquilo cá para fora! Cada vez mais admiro os médicos! Como é que eles se entendem no meio daquilo que eu vi e que me fez quase desmaiar!
O senhor manteve sempre a boa disposição, acho que nunca conheci alguém assim. Nada foi um obstáculo, tudo se contornou! Até aquela pessoa do grupo, que tendo assistido a tudo, teve a reacção de ficar chateado, zangado e incomodado por estarmos a perder tempo à espera da ambulância e de ajudá-lo em vez de continuar o tour!
Pergunto-me porque é que estas coisas não acontecem a pessoas como este outro senhor, em vez de a alguém tão bem disposto, e se acharia justo e correcto que tivessemos a atitude que ele estava a ter!

O senhor do polegar já está bem, e isso é que importa!
E eu nunca mais vou esquecer como é um dedinho por dentro!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Do monumento ao 25 de Abril

A arte moderna/contemporânea não é de entendimento imediato. Se há monumento na cidade de Lisboa que o demonstra, é a obra de Cutileiro no Alto do Parque Eduardo VII.
A escultura, também fonte, homenageia o fim da ditadura em Portugal. A água, elemento mais suave, símbolo do povo, destrói as pedras, elemento duro, símbolo da ditadura. Na frente de todo esse simbolismo, encontramos ainda um cravo vermelho.
Quando comecei a trabalhar achava que a maioria das pessoas iria sempre identificar a obra como sendo uma simples fonte. Mas ao longo destes anos percebi que há muitas mais visões para além desta.
A maioria dos turistas pensa efectivamente que é uma fonte.
Em segundo lugar vem a ideia de que é um monumento ao terramoto de 1755, simbolizando a destruição da cidade.
Os mais "atrevidos" apontam o seu lado fálico, sem embaraço algum nas teorias que desenvolvem.
Mas no outro dia, a trabalhar com mais duas queridas colegas (a Rita e a Sofia), fiquei a conhecer uma nova teoria: tudo aquilo não passa de um acto de vandalismo.
O senhor insistia que da última vez que tinha estado em Lisboa, a fonte estava inteira e que aquilo que estava ali não é mais do que o resultado de vandalismo!

Apetece-me arrematar como os brasileiros, quando brincam a tentar falar português de Portugal:
- Ora pois!


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Estas coisas acontecem

Ontem pela manhã, a agência liga-me a indicar o tour que iria fazer no dia seguinte.
Chegada a noite recebo uma nova chamada, devido ao mau tempo o navio cancelara a sua vinda a Lisboa.
É esta a rotina de um guia.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

GPS

Lembro-me que nos primeiros tempos desta profissão, ao chegar numa cidade onde nunca tinha estado e onde iria caminhar pela primeira vez sozinha com um grupo atrás de mim, fotocopiava mapas do tamanho da palma da minha mão para poder ir espreitando o caminho ou, quando o percurso era um pouco mais simples, memorizava nome de rua atrás de nome de rua para chegar a bom porto.
Mesmo que por vezes estivesse errada, indo com olhar atento, encontrava sempre algo na rua, numa fachada, nas pessoas, até numa montra de uma loja, para explicar e parecer que aquele era mesmo o caminho que queria fazer! Levava mais tempo a terminar o percurso? Levava, mas ninguém percebia, principalmente se não passasse nenhum sentimento de nervosismo.
Hoje em dia existe o GPS, o GPS no telemóvel e existe um grande número de pessoas, que não relaxando nas férias, ligam os seus GPS para saber se o percurso que o motorista escolheu é o melhor (mesmo que não tenham conhecimento de obras, picos de trânsito ou outros afins) e até mesmo se a guia está a andar na rua certa.
Enganar numa viela tornou-se tarefa mais árdua para lidar com certas pessoas ou explicar-lhes que aquele é o melhor caminho porque conhecemos o panorama geral tornou-se tarefa herculiana!

Certa vez estava com um grupo a percorrer a 24 de Julho, o nosso destino era o Hotel Tryp Oriente no Parque das Nações. Infelizmente entre manifestações, gruas, chuva e a fatídica hora das 18h00 o percurso que deveria ter levado no máximo 25 minutos, já ía numa hora. Infelizmente também, estavamos parados num ponto da estrada em que não havia a mínima das hipóteses de voltar para trás, escolher outro caminho e conseguir sair dali.
Obviamente o grupo foi ficando mais ansioso, cansado de estar no autocarro, com vontade de mudar de roupa após uma dia de passeio, com a fome a chegar e o medo de que não chegariam a tempo de jantar!
A chefe do grupo decide ligar o seu GPS: segundo aquela máquina faltavam 15 minutos para chegar ao seu destino.
Chamou-me e com o tom mais altivo do mundo, disse-me que queria sair do autocarro e ir a pé.
Nós estavamos à frente da estação do Cais do Sodré, dali ao Parque das Nações a pé seria à vontade uns 40 minutos ou 1 hora dependendo do andar da pessoa. Por muito que fosse a direito, tem partes do percurso em ruelas escuras e caminhos menos simpáticos principalmente para turistas.
Sem saber que ela já tinha visto o GPS disse-lhe toda essa informação.
Rindo disse-me: não minta, o GPS diz que são 15 minutos!

Ao ouvir estas palavras tive toda a vontade do mundo de lhe abrir as portas e deixá-la ir. O motorista dizia-me, eu abro as portas não se preocupe! Obviamente não o fizemos.
Tentei explicar à senhora onde estavamos, onde era o nosso destino e como eram as ruas. Disse-lhe que infelizmente estando nós onde estavamos a única e melhor solução seria continuar em frente, mas que teríamos de ter um pouco mais de paciência. Ou então irmos todos de metro, o que ainda levaria algum tempo pois teriam de andar em duas linhas.

Ela insistia na sua teoria. Pedi-lhe uns minutos para falar com os meus superiores e verem que opções queriam oferecer ao grupo.
Enquanto fazia a chamada, o grupo começou a falar entre si. Espreitavam o mapa do metro no telemóvel, testavam-me perguntando as estações (ao mesmo tempo que eu falava ao telemóvel), consultavam o mapa de Lisboa, eu sei lá.
A agência, percebendo a situação que a senhora criara, disse-me que só daria autorização para irem de metro, que a pé é impensável, mas que ainda assim eles teriam que assumir os riscos do que pudesse acontecer.
Expliquei-lhes, pedi-lhes paciência pois através de outra colega já sabíamos que ao passar aqueles semáforos, deixaríamos de ter trânsito e seria sempre realmente a andar.
Mas a senhora, reclamando-se chefe do grupo, queria ir a pé porque o GPS dizia tal coisa.
Perguntei-lhe: que opção colocou? a pé ou de carro?

Minutos de silêncio... de carro.

Ainda assim, não satisfeita, muda a opção e apesar de confirmar o que eu dizia, queria sair. Era um caminho sempre a direito não haveria problema. Felizmente o trânsito naquele preciso momento, andou tudo o que era preciso até ficarmos em caminho livre.
Ao longo do resto do percurso fui ouvindo os comentários das outras pessoas do grupo: que ainda era um longo caminho para ser a pé, que era escuro, que realmente havia partes menos "confortáveis".
Chegados ao destino, ela saiu sem uma palavra, os outros agradeceram não os ter deixado sair.

Ai GPS ao quanto nos obrigas!!!!



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Insólitos

Alguns grupos chegam acompanhados por um tour leader, O tour leader tem como principal função verificar que todo o programa se desenrola tal como previsto (como já vos mencionei algumas vezes noutros posts). Alguns tour leaders não gostam muito dos Guias, vêem-nos como inimigos. Pensam, que por darmos as explicações e no fundo falarmos mais com o grupo durante todo o dia que eles, o grupo passará a gostar mais de nós do que deles.
Esquecem-se é que se trabalharmos em equipa, o grupo entende as funções de cada um e ao observar uma boa convivência de trabalho em equipa, saberá elogiar o trabalho de ambos.

Com esses receios, há tour leaders que têm das reacções mais estapafúrdias possíveis! Começam a querer retirar partes do programa; decidem reordenar o dia e normalmente para pior (tornar as voltas mais complicadas e com horários mais confusos e ilógicos); sugerem lojas ou restaurantes que por vezes já nem existem, pois não nos perguntam se aquele lugar onde estiveram há 7 anos atrás ainda cá está e etc

Estes alemães tinham um tour leader que a cada 2m falava por cima de mim para dizer qualquer coisa, nem que fosse: "Estou aqui."
Mal tinhamos começado o grupo e percebi logo, pois os primeiros 5 minutos foram preenchidos por indicações que ele queria dar-me!!! Curiosamente as indicações foram dadas dentro do autocarro, assim num tom bem alto, para mostrar ao seu grupo que me estaria a ensinar, certamente!
Percebi logo, fiz-lhe um ar de quem ouviu com muita atenção todas aquelas explicações preciosas, e decidi esperar pelo momento certo para lhe responder do mesmo modo. O maravilhoso destas pessoas é que normalmente entalam-se sozinhas!
Começamos pela visita da Sé, percorremos o seu interior, expliquei tudo, chegamos cá fora e iriamos começar o nosso percurso pedonal.
Estavamos a juntar o grupo quando o senhor decide fazer o seguinte anúncio:
"Quero dizer-vos que lá dentro falou-se mais baixo porque obviamente estamos num local sagrado (à parte: ninguém sequer tinha reclamado se o tom tinha sido baixo ou alto!), mas não tenham medo, já disse à Cátia que a partir de agora terá que projectar bem a voz para que todos possam ouvir (ouvi as reacções dele a comentarem uns para os outros, mas ela falou bem, ouvi tudo...). Para tal vamos também organizar-nos doutro modo, peço às pessoas mais baixas para ficarem na frente, as mais alta atrás e formamos um ANFITEATRO, assim todos ouvirão o tempo todo."

Ouvi estas palavras e só queria rir! Um anfiteatro? Vamos pedir para que cada vez que paremos um grupo de 42 pessoas se organize em anfiteatro? Vamos separar casais porque os mais baixos têm que ficar na frente e os mais altos atrás? Questionei-me há quanto tempo trabalhava este homem, se isto funcionaria e quando é que eu poderia rir.
Aguardei a reacção do grupo.
Dois segundos de silêncio, dois segundos a olharem uns para a cara dos outros, seguido de gargalhadas gerais e sonoras!

Suspiro, quando é que as pessoas aprenderão que trabalho em equipa só traz benefícios?


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

História da Margarida Aguiso - A5

O grupo de cerca de 600 pessoas dividia-se num certo jantar por vários restaurantes da cidade.
A Margarida estava posicionada perto dos autocarros a indicar que autocarro ía para que restaurante.
Um casal aproximou-se e perguntou simplesmente:
"- A5?"
A5? Pensou a Margarida, mas visto o hotel não ser realmente longe da A5, ela explicou-lhes como ir até lá. Quem sabe tinham um carro e queriam ir jantar a outro lugar!
Eles agradeceram e puseram-se a caminho a pé pela calçada.
A Margarida pensando, porque iriam eles a pé, decidiu chamá-los e voltou a perguntar se era mesmo a A5 que eles procuravam. E eles confirmaram.
Um minuto depois aproximou-se outro casal e perguntou-lhe: "A13"!

Não podia ser, A13??? Após uma pequena conversa, percebeu-se que tinha sido entregue aos convidados um código de letras e números para cada restaurante, mas que ninguém tinha informado as guias!

E lá partiu a Margarida numa pequena corrida em busca dos senhores (que por sorte ainda não estavam longe) de forma a levá-los ao restaurante certo e à A5 a pé!




segunda-feira, 18 de março de 2013

"Os ocidentais são todos iguais"

Nós, ocidentais, temos por hábito dizer que os orientais são todos iguais e que não os conseguimos distinguir!
Não será o contrário também verdade? Reparem nestes dois exemplos:

- antes do evento acontecer, foi marcada uma reunião de staff da agência portuguesa com a agência chinesa. O objectivo era dar a conhecer o programa do grupo aos guias e apresentar todas as pessoas envolvidas na organização do evento. Eramos cerca de 10 guias, entre muito outro staff. Entrei, sentei-me na cadeira que me indicaram, coloquei a mala no chão e ao erguer a cabeça deparei-me com um telemóvel bem perto da minha cara. Ouvi - clic! Foi tão inesperado que fiquei um instante congelada naquela posição. 
Pensava, quem seria aquela pessoa e porque teria tirado a foto? De imediato o senhor perguntou-me o nome e escreveu no telemóvel.
É-nos então explicado, que as fotos foram tiradas, porque nós somos todos parecidos e assim eles não iriam cometer erros na nossa identificação.
Foi nítido o ar surpreso nas nossas expressões, mesmo que já tivessemos pensado nisso, viver-nos o momento é muito cómico!

- final de jantar de grupo, eu e mais três colegas aguardavamos junto à porta do edifício pela saída do grupo. Um dos senhores da comitiva chinesa dirigiu-se a nós a pedir informações de bares onde ir a seguir ao jantar. Da informação dos bares, passou a perguntas sobre monumentos e assuntos de Lisboa. Foram ainda uns largos minutos de conversa. O senhor decidiu voltar ao jantar e com medo de esquecer-se das dicas que lhe tinhamos dado, perguntou se estariamos ali quando saísse. Certamente que sim, respondemos. Passado um tempo, na hora do grupo sair e regressar ao autocarro, colocamo-nos nas nossas posições de forma a que o grupo percebesse o caminho que tinha de fazer até chegar ao autocarro. Embora já não estivessemos todas perto da porta, não ficamos muito longe.
O grupo começou a sair e a certo momento apareceu o senhor. Reparei que ele pára de caminhar e observa à sua volta. É evidente que procura alguém. E é evidente que não encontra, decide então, dirigir-se a mim:
"Não viu 4 senhoras que estavam ainda há pouco aqui à porta? Precisava falar com elas!"
"Somos nós, sir. Somos nós!"

(apesar da coincidência destas histórias ser com chineses, a verdade é que a segunda situação é muito recorrente. Os turistas têm muito mais dificuldade em memorizar o rosto do guia e do motorista, do que nós temos em memorizar 40 deles! Isso é algo que nunca consegui entender!)



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O velho provérbio que diz:

"não se meter onde não se é chamado"!

O casal discutia porque ela queria ficar a tirar fotos e a aproveitar a cidade que não conhecia, ele porque queria ir embora dormir para o quarto.
Mais de 20 minutos em discussão e eu pensei, vou ajudar! 
Atenção que a discussão estava a ser a 4 passos da porta do autocarro.

Digo à senhora: "então deixe-o ir, assim a senhora aproveita como quer e sem o ter desanimado ao seu lado, até é mais agradável para si."
Responde ela: " o que ele quer sei eu muito bem."

Ops...

domingo, 26 de agosto de 2012

História dos guias em alemão - Dislexia

Dislexia momentânea em alemão pode criar momentos inesquecíveis porque em vez de se contar a história do "terramoto (em alemão Erdbeben) de 1755" pode-se estar a contar sobre a grande tragédia do "morango (em alemão Erdbeeren) de 1755"!

Só consigo rir rir rir rir rir rir

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ao que isto deve soar!!!

Na profissão de Guia-Intérprete utilizamos termos como:


nocturna - refere-se a um tour seguido de jantar ou simplesmente acompanhamento durante o jantar
clientes - os turistas
acompanhar

Imaginem quando estamos ao telefone a misturar estes termos com palavras como hotel e bar e ao nosso lado está alguém que não faz ideia do que é esta profissão!

Por vezes passamos momentos muito embaraçosos, ou cómicos!!!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Vindo dos céus


Cenário:
um mosteiro, uma guia, 40 turistas atentos à explicação da fachada.
um dia solarengo, pouco vento.

Acção:
a guia explica a fachada do mosteiro quando vindo dos céus um cócó de pombo lhe cai na cabeça!

Reacção:
a guia pára o discurso e pensa "não, isto não acabou de acontecer!"
alguns turistas tentam esconder o riso; outros abrem a boca de espanto; umas poucas senhoras procuram lenços na mala.
...
a guia ri, muito
todos riem com ela
chegam os lenços para limpar. Aponta-se para o céu, ri-se.

a fachada? que interesse tem a fachada?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"Mars" não é só um planeta


Quando uma empresa decide organizar uma viagem para os seus trabalhadores contacta uma agência de turismo do seu país para tratar de tudo. Essa agência, por sua vez, contrata uma agência de turismo do destino escolhido (chamada a agência local), que por sua vez contrata a empresa de autocarros, os restaurantes, os guias e todas as outras actividades escolhidas. Essa empresa que pediu a viagem é chamada na gíria de turismo - o cliente final.
O guia quando vai trabalhar está na verdade a trabalhar para 3 entidades diferentes: a agência local, a agência estrangeira (cliente da anterior) e a empresa (cliente final). O nosso papel é satisfazer na verdade todos, mas acima de tudo responder à agência local. Sempre que se levanta uma questão deve-se contactar o project manager da agência local e respeitar as suas decisões. Mas o cliente final é aquele que queremos que esteja sempre sorridente e feliz com todo o programa e responder no máximo possível às suas ideias!
Por norma as agências indicam-nos quem é o cliente final. Para "não metermos o pé na argola"!

Masterfoods - é uma empresa dos EUA que cresceu enormemente e tem representações no mundo inteiro e contém entre muitos outros, produtos como Uncle Bens, Whiskas, Balisto, Twix, M&Ms...
Há uns anos decidiram fazer a reunião anual em Portugal e ofereceram a todos os membros que vieram para essa reunião, uma visita de Lisboa seguida de jantar e discoteca.
Dentro do grupo havia um senhor que se destacava pelas constantes piadas, muitas delas mesmo no limiar da piada que por vezes deixa os outros um pouco desconfortáveis.
Após o jantar reuniu-se um pequeno grupo à sua volta e do representante da agência local a conversar (eu estava lá também). Passado uns minutos o tal senhor dirigiu-se a mim e perguntou-me: "I'm from Mars, where are you from?"
A expressão dele ao dizer esta frase era de extremo orgulho com aquele sorriso de quem está a brincar com a outra pessoa.
Tendo em conta o que tinha observado antes respondi-lhe: "I'm from Venus"
E nisto levo uma cotovelada do rapaz da agência e ouço muito baixinho - "Cátia ele é o presidente da Mars!!!"

Ops... tinham-se esquecido de indicar quem era o cliente final!

Ía morrendo! Pensamentos em catadupa - Masterfoods em Portugal, mas Mars a nível internacional! E eu tinha acabado de dizer uma piada ao Presidente e ao cliente final. Congelei. Pensei - pronto, nunca mais trabalho para esta agência!
Mas tive sorte, o senhor riu-se imenso, todos riram e ele chegou mesmo a dar-me os parabéns pela resposta. Não levou mesmo a mal. Inclusivé foi contar a praticamente todas as outras pessoas convidadas e ao longo da noite fui ouvindo as senhoras a dizerem-me: "Foste tu que lhe deste aquela resposta? Muito bem dada, diz isso a todas. Merecia que alguém finalmente lhe dissesse algo!"

Gostava de ter uma fotografia da minha expressão quando levo a cotovelada!