Nunca entendi porque compra uma pessoa um tour sem ler o que está no programa.
Quando chega e repara que afinal não vai onde queria mesmo ir ou que o programa não inclui tempo livre e o que queria mesmo era fazer compras, fica extremamente furioso e zangado sem razão.
Sugestão: ler o programa do tour e, se for de encontro ao que deseja, adquirir!
Nos primeiros anos de trabalho eu ficava muito nervosa quando estas situações aconteciam, depois aprendi que o erro não é meu, nem da agência que organizou o tour. O erro é simplesmente da pessoa que comprou o tour e não leu. Há tantos tours diferentes, certamente um adapta-se ao que procura, basta ler.
A forma de me proteger de comentários rancorosos que exigem uma solução imediata como se eu estivesse a fazer algo é:
- tal como diz no vosso programa agora vamos visitar isto ou aquilo, ou agora temos tempo livre!
É a frase chave! A palavra mágica, porque assim percebem logo que a falha partiu deles.
A semana passada tive mais um exemplo de uma situação assim. Chegados ao momento da pausa para café anunciei que tal como estava no programa iriamos parar 20 minutos para tempo livre.
Reacção imediata de um grupo de 4 pessoas: gritos histéricos a dizer NÃO!!! (acreditem que não estou a exagerar, eu dei um salto no meu banco e o motorista que não percebia alemão perguntou-me logo o que é que eu tinha dito para que houvessem estes gritos!)
Como a reacção foi tão imediata perguntei ao grupo se ninguém queria parar para o tempo livre (obviamente não vou obrigar um grupo inteiro a fazer algo que não quer), mas o resto do grupo disse SIM!!!
Informei que havendo pessoas que queriam e estando no programa, teria que fazer a pausa.
As 4 pessoas vieram com cara muito zangada dizer que tal paragem não se admitia, que iriam de táxi de volta ao navio pois o que eu estava a fazer iria atrasar a chegada deles a outro tour que tinham à noite.
Eu, muito calmamente, fui buscar o programa e mostrei aos senhores os horários do tour, de cada paragem e a hora de chegada ao navio. Acrescentei onde era a paragem do táxi.
Reacção: silêncio, um aceno de cabeça e foram embora.
Por favor, quando viajarem se comprarem tours, leiam os programas!
terça-feira, 23 de abril de 2013
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Condição física
Nestas últimas semanas só me consigo lembrar do meu professor de Prática Profissional a dizer:
"um Guia tem que estar em forma, tem que ter óptima condição física, porque precisa de ter corpo e mente sãos. São horas a andar, dias a andar, em que precisa mostrar energia o tempo todo e a mente a acompanhar. Por vezes são dias com mínimas horas de sono."
O que eu tenho subido e descido e andado e sei lá mais o quê.
Hoje já cantava:
ehehehe
"um Guia tem que estar em forma, tem que ter óptima condição física, porque precisa de ter corpo e mente sãos. São horas a andar, dias a andar, em que precisa mostrar energia o tempo todo e a mente a acompanhar. Por vezes são dias com mínimas horas de sono."
O que eu tenho subido e descido e andado e sei lá mais o quê.
Hoje já cantava:
ehehehe
lufa lufa
Um tour em duas línguas com nacionalidades que não se complementam.
A maioria dos turistas são velhinhos.
Uma hora e meia do programa é a pé.
Percorrer ruas labirínticas, atravessar estradas, caminhar no centro, ruas cheias de pessoas com 42 atrás de mim.
Alguém atrasa-se. Ser obrigada por norma da agência a esperar 15 minutos, procurar a senhora no centro de uma cidade - em vão. Ter a outra metade germânica a exigir ir embora porque a culpa é de quem não está, pura e simplesmente.
Auriculares que não funcionam e troca-se e troca-se.
Perceber quem é a senhora que falta, perceber que deixou a mala no autocarro, perceber que é diabética.
Enquanto caminho com o grupo a ter em mente tudo o que o tour ainda inclui, a gerir explicações e atenções individuais, ligar à agência, à polícia e hospitais a ver se se sabe da senhora.
Pessoas que no meio disto não entendem prioridades, nem acham que uma senhora diabética perdida num país que não conhece merece um pouco mais de atenção que uns minutos perdidos num tour de Lisboa (minutos esses que são depois compensados).
Conseguir.
A senhora é encontrada.
O tour é feito.
As pessoas saem a sorrir, com muitos obrigados e felicidades.
lufa lufa
A maioria dos turistas são velhinhos.
Uma hora e meia do programa é a pé.
Percorrer ruas labirínticas, atravessar estradas, caminhar no centro, ruas cheias de pessoas com 42 atrás de mim.
Alguém atrasa-se. Ser obrigada por norma da agência a esperar 15 minutos, procurar a senhora no centro de uma cidade - em vão. Ter a outra metade germânica a exigir ir embora porque a culpa é de quem não está, pura e simplesmente.
Auriculares que não funcionam e troca-se e troca-se.
Perceber quem é a senhora que falta, perceber que deixou a mala no autocarro, perceber que é diabética.
Enquanto caminho com o grupo a ter em mente tudo o que o tour ainda inclui, a gerir explicações e atenções individuais, ligar à agência, à polícia e hospitais a ver se se sabe da senhora.
Pessoas que no meio disto não entendem prioridades, nem acham que uma senhora diabética perdida num país que não conhece merece um pouco mais de atenção que uns minutos perdidos num tour de Lisboa (minutos esses que são depois compensados).
Conseguir.
A senhora é encontrada.
O tour é feito.
As pessoas saem a sorrir, com muitos obrigados e felicidades.
lufa lufa
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Atelier-Museu Júlio Pomar
Uma casa linda no coração de Lisboa.
Obras que encantam.
Entrada gratuita.
O que querem mais?
mesmo a chegar...
Obras que encantam.
Entrada gratuita.
O que querem mais?
mesmo a chegar...
lá...
segunda-feira, 15 de abril de 2013
O rossio na betesga
Missão cumprida é quando conseguimos que o grupo esteja super feliz e contente após um programa que significa "meter o rossio na betesga".
Eu sei que esses programas acontecem com as melhores das intenções, mas exigem dos guias um jogo de cintura incrível. Pois temos que mostrar tudo sem lhes dar a noção de correria e impossibilidade. Encontrar ainda momentos para casas de banho e café.
O relógio torna-se o nosso melhor amigo, ou o pior. Na cabeça só passam os horários de fecho dos monumentos e o motorista torna-se mais do que nunca o "partner in crime".
Aqui vos deixo alguns exemplos, para aqueles que ainda acham que o guia passeia sem mais alguma preocupação:
- das 10h00 às 17h00 - Belém, Cabo da Roca, Palácio da Vila, Palácio de Mafra
- das 08h00 às 20h00 - Porto, Santiago de Compostela, Fátima, Montijo
- das 09h00 às 18h00 - Lisboa, Coimbra, Fátima, Porto
- das 09h00 às 13h30 - Palácio da Pena, Quinta da Regaleira, Cabo da Roca, Guincho
- das 08h30 às 18h00 -Évora, Estremoz, Castelo de Vide, Marvão.
e nos circuitos internacionais?
Eu sei que esses programas acontecem com as melhores das intenções, mas exigem dos guias um jogo de cintura incrível. Pois temos que mostrar tudo sem lhes dar a noção de correria e impossibilidade. Encontrar ainda momentos para casas de banho e café.
O relógio torna-se o nosso melhor amigo, ou o pior. Na cabeça só passam os horários de fecho dos monumentos e o motorista torna-se mais do que nunca o "partner in crime".
Aqui vos deixo alguns exemplos, para aqueles que ainda acham que o guia passeia sem mais alguma preocupação:
- das 10h00 às 17h00 - Belém, Cabo da Roca, Palácio da Vila, Palácio de Mafra
- das 08h00 às 20h00 - Porto, Santiago de Compostela, Fátima, Montijo
- das 09h00 às 18h00 - Lisboa, Coimbra, Fátima, Porto
- das 09h00 às 13h30 - Palácio da Pena, Quinta da Regaleira, Cabo da Roca, Guincho
- das 08h30 às 18h00 -Évora, Estremoz, Castelo de Vide, Marvão.
e nos circuitos internacionais?
sexta-feira, 12 de abril de 2013
nós
Há uma característica portuguesa (ou talvez até dos povos do sul da Europa) que surpreende e agrada os estrangeiros: o à vontade com que falamos uns com os outros, mesmo se somos "estranhos".
Estava no eléctrico a caminho de Belém com um casal. Contava-lhe histórias e falavamos de trivialidades, quando noto que uma senhora se aproxima e diz-me:
"Estou a gostar tanto de a ouvir. Não se esqueça de os levar aos Kuchen" e sorri.
Com Kuchen queria ela dizer, os Pastéis de Belém em alemão.
Ao ouvirem a palavra em alemão, eles ficaram logo mais atentos ao que se estaria a passar.
A senhora continuou a contar que tinha aprendido alemão, mas que já esquecera tudo, no entanto adorava ouvir a língua e sempre que tinha oportunidade gostava de dizer alguma coisa.
Para que eles entedessem que a senhora estava apenas a ser simpática e a querer dar uma dica, expliquei-lhes a situação. Não fossem achar que íamos ser assaltados!!!
Agradeceram, sorriram, a senhora também e ela continuou. No tempo de 2 minutos esta senhora contou-me que morava ali perto e por isso vai aos pastéis sempre que pode, que adora ver Lisboa com estrangeiros, que adora dias de sol (como naquele dia) e que queria muito aproveitar a vida porque lhe tinha sido diagnosticado um cancro de mama que ela conseguira combater!
Em 2 minutos, sem me conhecer, esta senhora sentiu que podia dizer tudo isto!
A paragem chegou, despedimo-nos desejando sorte na Vida a cada um.
A reacção imediata do casal foi perguntar se eu a conhecia, se era da minha família, uma tia?
Não, apenas alguém que lhes quis indicar algo de forma a não falharem um must do em Lisboa e que sentiu que havia uma boa atmosfera para falar um pouco de si.
Contei-lhes o que me dissera.
Eles silenciaram um pouco e acrescentaram:
"os povos nórdicos nunca serão capazes de criar laços assim"
Estava no eléctrico a caminho de Belém com um casal. Contava-lhe histórias e falavamos de trivialidades, quando noto que uma senhora se aproxima e diz-me:
"Estou a gostar tanto de a ouvir. Não se esqueça de os levar aos Kuchen" e sorri.
Com Kuchen queria ela dizer, os Pastéis de Belém em alemão.
Ao ouvirem a palavra em alemão, eles ficaram logo mais atentos ao que se estaria a passar.
A senhora continuou a contar que tinha aprendido alemão, mas que já esquecera tudo, no entanto adorava ouvir a língua e sempre que tinha oportunidade gostava de dizer alguma coisa.
Para que eles entedessem que a senhora estava apenas a ser simpática e a querer dar uma dica, expliquei-lhes a situação. Não fossem achar que íamos ser assaltados!!!
Agradeceram, sorriram, a senhora também e ela continuou. No tempo de 2 minutos esta senhora contou-me que morava ali perto e por isso vai aos pastéis sempre que pode, que adora ver Lisboa com estrangeiros, que adora dias de sol (como naquele dia) e que queria muito aproveitar a vida porque lhe tinha sido diagnosticado um cancro de mama que ela conseguira combater!
Em 2 minutos, sem me conhecer, esta senhora sentiu que podia dizer tudo isto!
A paragem chegou, despedimo-nos desejando sorte na Vida a cada um.
A reacção imediata do casal foi perguntar se eu a conhecia, se era da minha família, uma tia?
Não, apenas alguém que lhes quis indicar algo de forma a não falharem um must do em Lisboa e que sentiu que havia uma boa atmosfera para falar um pouco de si.
Contei-lhes o que me dissera.
Eles silenciaram um pouco e acrescentaram:
"os povos nórdicos nunca serão capazes de criar laços assim"
terça-feira, 9 de abril de 2013
"Estamos a criar pessoas sem apego e isso é tão perigoso"
Há momentos preciosos no meu trabalho, momentos em que uma conversa faz sentir clamor na esperança que tenho para o mundo: o da união.
Os líderes do mundo continuam a apregoar pela diferença e a liderar povos para a luta por se acharem superiores a outros. Continuam a fingir dar educação aos jovens, quando na verdade o que pretendem é controlar mentes.
No entanto, aos poucos, as pessoas vão deixando de temer exprimir a sua opinião e vão desabafando, começam a lutar pelo que querem e defendem, pelo que sentem dentro de si.
Numa era de rapidez, de máquinas, de louvar o futuro, o aqui e o agora, numa era em que lemos mensagens de celebridade e fama, de dinheiro, de sexualidade sem pensar, de invasão total na privacidade, de reality shows, noto que a cada dia são mais as pessoas que dizem coisas como a deste senhor:
"Gostei muito de ouvir o que nos contaste. É importante haver pessoas que preservam a história dos locais, dos países, das tradições, do que somos porque fomos um dia. Pessoas que estudam e que passam a palavra, as histórias. A pressa, o presente, o querer ser-se famoso, está a matar quem somos e a levar ao esquecimento da história. E sem história nós somos nada. Estamos a criar pessoas sem apego e isso é tão perigoso."
- Itália
O senhor falou mesmo assim, num tom meio poético. Eu queria tanto ter continuado esta conversa, mas aproximava-se o tempo de visitar outro monumento.
Os líderes do mundo continuam a apregoar pela diferença e a liderar povos para a luta por se acharem superiores a outros. Continuam a fingir dar educação aos jovens, quando na verdade o que pretendem é controlar mentes.
No entanto, aos poucos, as pessoas vão deixando de temer exprimir a sua opinião e vão desabafando, começam a lutar pelo que querem e defendem, pelo que sentem dentro de si.
Numa era de rapidez, de máquinas, de louvar o futuro, o aqui e o agora, numa era em que lemos mensagens de celebridade e fama, de dinheiro, de sexualidade sem pensar, de invasão total na privacidade, de reality shows, noto que a cada dia são mais as pessoas que dizem coisas como a deste senhor:
"Gostei muito de ouvir o que nos contaste. É importante haver pessoas que preservam a história dos locais, dos países, das tradições, do que somos porque fomos um dia. Pessoas que estudam e que passam a palavra, as histórias. A pressa, o presente, o querer ser-se famoso, está a matar quem somos e a levar ao esquecimento da história. E sem história nós somos nada. Estamos a criar pessoas sem apego e isso é tão perigoso."
- Itália
O senhor falou mesmo assim, num tom meio poético. Eu queria tanto ter continuado esta conversa, mas aproximava-se o tempo de visitar outro monumento.
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